CAPA

Ilustração para a capa do Livro Segundo
FIM DO LIVRO SEGUNDO

30.

A súbita e prolongada ausência dos animais,deixa os habitantes da vila profundamente deprimidos.É certo que o sol continua a nascer todos os dias,mas a falta que todos sentem do canto dos pássaros,dos ladridos dos cães,dos miados dos gatos e dos demais sons tão familiares e tão necessários ao seu equilíbrio psíquico,torna-se insustentável.E correm em massa para a igreja,a fim de pedir aos santos da sua devoção que tragam,de novo,os animais para o seu convívio.Desesperados, começam a pôr a hipótese de abandonar aquele lugar que consideram amaldiçoado.Até que,cumprido o prazo combinado,eis que regressa a bichara!Foguetes estrelejam no céu;e até a banda de música sai para a rua a festejar o feliz acontecimento.Mas será que os humanos aprenderam a lição?Chispa tem grandes dúvidas a esse respeito.Seja como for,sente-se orgulhosa do feito em que participou.E sabe que Gaia,a Deusa Mãe,aprova,desde o seu trono de flores,tão corajosa como exemplar iniciativa-mais exemplar,ainda,por ter sido pacífica.

29.

E a cadelinha expõe,pormenorizadamente, o procedimento que,segundo o seu ponto de vista,devem seguir,e que se resume no seguinte:Durante um determinado período de tempo,que pode ser de um mês, desaparecerão da vista dos humanos .Assim,ao longo desses 30 dias,ninguém verá seja que animal for.A ideia de Chispa não provoca grande entusiasmo entre os presentes.Mas Thor apoia-a:"Sim,parece-me um belo estratagema.Só é pena que os nossos irmãos chamados domésticos e de estimação não queiram colaborar",lamenta."Talvez eu possa convencê-los",grasna Tobias.E logo voa para a vila,disposto a conquistar a aderência de,pelo menos,todos os cães e gatos que nela habitam.Por isso,quando regressa ao local da reunião chefiando um pequeno exército,escuta,emocionado,o aplauso unânime dos seus irmãos silvestres.(CONTINUA)

28.


E,após um pequena paragem para recobrar o fôlego,continua:"Não vos pretendo incitar à violência,nem desejo pedir-vos que os odieis.Quero,apenas,que lhes façamos saber quão grande é o nosso descontentamento em relação à sua conduta.Tendes alguma ideia?"Todos se entreolham em silêncio,mas ninguém é capaz de apresentar um estratagema digno desse nome.Então,sacudindo a timidez que a domina,Chispa transmite a Thor e a toda a assembleia a estratégia que lhe parece mais certa,e que consiste,segundo os seus próprios ladridos,em desaparecer por uns tempos."Queres explicar-te melhor?",pede-lhe o urso.

27.

Ao chegarem às imediações da peculiar rocha,a primeira coisa que vêem é,no cimo desta,a figura imponente de Thor, urrando para uma verdadeira multidão de bichos.Estão ali representantes de todas as espécies que habitam a floresta e os montes circundantes;e o urso só lamenta que não estejam,também,os animais domésticos.Mas,farejando a presença de Chispa,emenda o que acaba de dizer,congratulando-se com a sua presença.A cadelinha sente-se observada por centenas de olhos.Humilde como é,só lhe apetece cavar um buraco no chão e esconder-se nele."Temos de demonstrar aos humanos que não estamos contentes com a sua conduta em relação a nós.Eles matam-nos por puro capricho,consideram-nos sua propriedade e usam-nos a seu bel-prazer,demonstrando que não têm por nós o mínimo respeito",declara Thor.

26.


Após este doloroso episódio,Chispa convence-se de que,na realidade,será muito importante participar na grande reunião em que Thor procurará,com a ajuda de todos os animais de boa vontade,encontrar uma forma de mostrar aos humanos a revolta dos filhos de Gaia(1).Tobias aplaude a decisão de Chispa e,por indicação do tal corvo seu amigo,mostra-lhe o caminho para o local onde será levado a efeito o transcendente evento.Trata-se de uma grande clareira denominada Cabeça de Cavalo,por nela existir uma rocha cuja forma se assemelha à cabeça de um desses magníficos animais.E para lá se dirigem o mais depressa que podem.(1)Gaia:A deusa da Terra.

25.


"Antes de partirdes falai com Thor",aconselha Chispa."Admiro muito esse urso,pela sua sabedoria;mas,neste caso,que pode ele fazer por nós?Enfrentar os caçadores?Deixar-se abater pelas suas terríveis armas?",uiva o lobo alfa,em perfeita sintonia com os outros dois."Compreendo-vos",ladra Chispa."Mas é muito triste que tenhais de deixar o vosso território",conclui."Sim:muito triste",corrobora o lobo alfa.Impotente para impedir o seu êxodo, mas com a consciência tranquila,porque os avisou do perigo que correm,Chispa despede-se dos três lobos.Eles agradecem-lhe o grande gesto de solidariedade e regressam aos seus covis,a fim de iniciarem ,quanto antes, a grande marcha rumo a um lugar onde não se faça sentir a presença humana.

24.

"Sabes quando é que esses humanos vêm para nos matar?",pergunta ele a Chispa."Creio que nos próximos dias,porque já começaram a fazer os preparativos",informa a cadelinha."Só temos uma saída",rosna o lobo alfa."Qual?",pergunta-lhe um dos companheiros."Deixar este território para sempre",diz,soltando um uivo de amargura."Talvez haja outra solução",opina Chispa."Deixarmo-nos matar?",rosna o lobo alfa com dorida ironia."Dentro de duas luas,a minha companheira dará à luz.Quero que o faça em segurança e que os nossos filhos tenham direito à vida e possam crescer livres",conclui.

23.

Após atravessar o resto da floresta sem mais percalços,chega ao sopé da serra em cujo cume se refugia a alcateia.A partir dessa zona,Chispa sabe que estará a ser observada por sentinelas bem atentos.Um primeiro uivo indica precisamente isso:o membro do grupo que desempenha essas funções acaba de detectá-la,avisando desse facto os seus companheiros.E,num instante,a recém-chegada vê-se rodeada por três possantes lobos."Quem és tu,e o que fazes por estas paragens?",pergunta-lhe o que parece ser o lobo alfa(1).Chispa apresenta-se e,em poucos ladridos,dá-lhe a conhecer as malévolas intenções dos caçadores."Temos que tomar providências",rosna ele,preocupado.|(1)Lobo alfa:Diz-se do lobo dominante,que chefia a alcateia.

22.

"Pois é pena",comenta alguém."Ilca!",ladra Chispa,feliz por reencontrar a amiga."Não;não sou a Ilca.Sou a sua irmã mais velha.Ela...Ela já não está entre nós",suspira amargamente a corça."Queres dizer que...?",gane Chispa,incrédula."Sim:morreu.Foi assassinada por um caçador",esclarece."Primeiro,a vossa mãe.Agora, a Ilca...Se soubesses como lamento!",gane a cadelinha,desolada.Assumindo uma postura enérgica,como que a sacudir do coração a dor que a consome,a irmã do malogrado animal volta-se para o gato-selvagem e ordena-lhe:""Põe-te daqui para fora imediatamente,se não queres conhecer a dureza dos meus cascos!"Perante tal aviso,o felino desaparece na mata,deixando a Chispa o caminho livre para prosseguir."Que a Mãe Natureza te proteja!",deseja-lhe a corça na despedida.E a corajosa cadelinha retoma a marcha,lamentando com Tobias o triste fim de Ilca.

21.

Chispa procura desviar-se do gato-selvagem,a fim de retomar a marcha,mas este posta-se à sua frente,impedindo-lhe a passagem e bufando ameaçadoramente."Não me metes medo",ladra-lhe a cadelinha."Se não me deixas passar,estarás a fazer o jogo dos humanos que pretendem matar os nossos irmãos lobos",admoesta-o."Não sei de que lobos me estás a ladrar",mia o gato-selvagem,irredutível."Nunca ouviste falar em Thor?",pergunta-lhe Tobias."Thor,o urso",acrescenta Chispa."Não conheço tal bicharrão",mia o gato-selvagem com sobranceria.

20.


"Admiro a tua coragem",confessa-lhe Tobias."Não eras tu que dizias que era importante participar no tal movimento?Pois aqui me tens",ladra Chispa,determinada.E partem rumo ao alto da serra,com passagem obrigatória pela floresta.E é ao atravessar essa zona que as coisas se complicam.Descendo de uma árvore,um gato-selvagem enfrenta a 'intrusa'."Com que direito invades o meu território?Será que não tens faro?",mia ele,furioso."Desculpa.Não era minha intenção",ladra Chispa."Maçada!Estava tão bem a saborear uma presa e tenho de interromper o repasto para te dar uma lição!",mia,de novo, o gato-selvagem."Não te deixes intimidar,minha amiga!",grasna o gaio.

19.


Por triste coincidência,os caçadores da vila estão a organizar uma batida ao javali.Mas,na verdade,o que pretendem é exterminar uma alcateia de lobos existente nas serranias da comarca-o que,para além de ser por si só um crime,é,também,ilegal.E,enchendo-se de coragem,Chispa decide partir ao encontro dos lobos,para os avisar do perigo que correm.Fá-lo,de novo,na companhia de Tobias,que é um guia perfeito,pois conhece a região tão bem como as suas penas,para usar a sua própria expressão.O caminho é longo e perigoso,dado que terão de atravessar a floresta e,indo além dela,atingir os cumes mais inacessíveis onde os lobos têm os covis.

18.

Tobias é posto ao corrente da magna reunião por um corvo amigo,e transmite a Chispa o que lá se passou."É muito importante que tu,o Quevedo,o Chiquinho e o Dante participem nesse movimento",opina."Penso que não seremos bem recebidos",pressente Chispa."Hão-de aparecer por lá lobos,raposas,gatos-selvagens e outros bichos bem pouco amistosos em relação a nós,domésticos",opina ela."O que vai nessa cabecita,minha amiga!",grasna o gaio."Até pareces um humano a falar!Nenhum dos animais presentes nessas reuniões vai lá com ânimo belicista.Porque todos nós,de uma ou de outra maneira,acabamos por ser vítimas dos humanos",conclui Tobias.

17.

Enquanto isso,lá longe,na floresta,Thor dirige-se a um grupo de animais, que escuta atentamente os seus sábios grunhidos.Têm de fazer alguma coisa para demonstrar aos humanos que,ao contrário do que pensam, não são os donos e senhores de Gaia,mas apenas seus filhos,como o são os lobos,as víboras ou as cotovias."A Terra não é nossa.Nós é que lhe pertencemos.Porque tudo é de todos e,paradoxalmente, nada é de ninguém",conclui o urso.A assistência aplaude à sua maneira,e combina reunir-se,de novo,com Thor,a fim de delinear uma estratégia no sentido de fazer ver aos humanos quão errada é a sua conduta em relação aos seus irmãos das espécies ditas "inferiores".

16.

A realidade,porém,é outra.Chiquinho fez correr a notícia da sua participação na exposição canina para camuflar o verdadeiro motivo do seu desaparecimento.O que aconteceu foi que,aquando do episódio dos rottweilers,se precipitou numa fossa séptica(1) irresponsavelmente destapada,ficando em mísero estado.Como poderia aparecer aos seus amigos e conhecidos,se o seu pêlo exalava um cheiro equivalente ao de cem galinheiros?Seria vítima da chacota geral!Como suportar tal provação sem adquirir uma doença nervosa crónica ou coisa bem pior?...Por isso,optou por ficar em casa dos humanos com quem vive,até o pivete desaparecer por completo.|(1)Fossa séptica:Unidade de tratamento primário do esgoto doméstico,na qual é feita a separação e transformação físico-química da matéria sólida contida no esgoto.

15.

"Pobre Dante",ladra Quevedo."Se soubesse que o ia assustar assim,ter-me-ia calado"."Ora!O Dante é um assustadiço",lembra Chispa."Assusta-se com a sua própria sombra!E,por falar em bichos assustadiços:por onde andará o Chiquinho,que mais ninguém lhe pôs a vista em cima,desde o caso dos rottweilers?",interroga-se."Parece que está a participar num concurso de beleza canina",informa Quevedo."Brincas!",ladra Chispa,incrédula."Acredita que é verdade",reafirma Quevedo."Foi a um desses concursos onde é testado o 'pedigree'"."Imaginem só quando regressar!Ninguém lhe vai poder aturar o ego!",comenta Chispa."Efectivamente.Vaidoso como é,vai exigir que lhe façamos vénia e lhe beijemos a pata!...",vaticina Tobias.

14.

"Dante emagreceu!",proclama o gaio.É verdade,confirma o gato,saíndo com grande agilidade do barril."O que o medo não faz!...",zomba Tobias."Medo,eu?!Bem se vê que não me conheces!",mia Dante,pondo ares de ofendido.Nisto,Quevedo,que acaba de chegar sem que nenhum dos presentes tenha dado por isso,cumprimenta-os com os seus ladridos potentes e graves.Dante dá um salto enorme,como que impelido por uma mola,e parte a grande velocidade,convencido de que tem de novo o pit bull à perna."Acabamos de assistir a mais uma actuação de Dante,o famoso gato supersónico!",grasna Tobias.

13.


A informação é dada é por Tobias que,tendo regressado,viu lá do alto o desenrolar da cena.O pit bull dá às de vila-diogo;e Chispa,que percebeu,de imediato,a marosca,afasta-se do cenário do frustrado duelo."Enganei-o bem,hem,minha amiga!",palra o gaio,orgulhoso do seu feito."Tirem-me daqui",ouve-se alguém miar.É que Dante saltou para dentro de um barril e,agora,não consegue sair."Este gato dá comigo em doida!",rosna Chispa,enquanto tenta descobrir um meio de o resgatar."Milagre!",grasna Tobias,espreitando para dentro do barril.

12.


Quando Gladiador detecta Dante,avança para ele ladrando furiosamente.Mas Chispa enfrenta-o com inusitada coragem,permitindo,assim,ao gato,pôr-se a salvo,livrando-se de uma morte certa."Afasta-te de mim,pequenitota!",ladra Gladiador a Chispa."Que raça de canídeo és tu que defendes os gatos?!""Não te temo,Gladiador",rosna-lhe Chispa,fitando-o bem de frente."Sabes que te posso pôr fora de combate com uma só dentada",rosna,por sua vez,o pit bull."Vem aí a carroça do canil municipal!",avisa alguém.

11.

"O melhor que tens a fazer é ir para casa,Dante.Talvez te levem ao veterinário",aconselha-o Chispa.Ao ouvir ladrar em veterinário,o gato pensa que,se calhar,vão abrir-lhe a barriga para lhe tirar,uma a uma,todas as amaldiçoadas ratazanas;e,lançando-se do alto da vedação, estatela-se no solo como um saco de batatas,soltando um miado de dor.Cambaleando,no jeito de quem carrega sobre o lombo o peso do próprio mundo,toma,de seguida, a direcção da estrada que leva ao centro da vila."Aonde vais?",pergunta-lhe Chispa."Vou pedir auxílio ao Garra Suja",mia Dante."Ele é veterinário?",indaga a cadelinha."Não;mas conhece todo o tipo de ervas medicinais",esclarece o gato.Porém,eis que surge,a poucos metros do local onde se encontram,Gladiador,um pit bull façanhudo que vota um ódio de morte a tudo quanto mia.

10.

"Conheces aqueles gatos de rua com quem me dou,não é verdade?",começa Dante,miando com alguma dificuldade."Refiro-me ao Garra Suja,ao Meia Cauda e ao Bigodes.Ora o Garra Suja presta serviço na Câmara Municipal,no departamento de desratização,a troco de comida.Então,convidou-me para ir com ele,mai-los outros dois,a uma acção de limpeza num prédio devoluto onde havia,à vontade,mais de vinte ratazanas por metro quadrado.Resultado:foi um fartote!Empanturrei-me de tal maneira que fiquei neste estado".Tobias,que ainda anda por ali,grasna,irónico:"Se algum cão das redondezas te fareja,estás feito!Sim,porque,com esse bandulho assim tão cheio,até um caracol te vence em corrida!..."E,dito isto,eleva-se nos ares,a rir-se a bandeiras despregadas da figura ridícula de Dante.

9.

Mas,o que a seguir encontra pela frente,não deixa,também,de a perturbar,levando-a a soltar um ladrido de justificado espanto:"Dante!?És...És mesmo tu?"À sua frente,esparramado sobre uma vedação,tem um gato que,de tão gordo,dir-se-á poder explodir a qualquer momento."É óbvio que sou eu.Mas,nada de comentários cínicos.Posso estar a morrer e quero fazê-lo em paz",mia Dante."Estás mas é às portas de uma congestão!Como foi que ficaste assim?!"Se Dante pudesse assobiar,olharia para o ar e fá-lo-ia,como se não tivesse ouvido nada ou estivesse,simplesmente,distraído.Como não pode,e perante a compreensível curiosidade de Chispa,só tem uma saída:contar-lhe o que aconteceu.

8.

"Espera por mim",grasna Tobias,voando no seu encalço."Não devias fugir assim de uma personalidade tão respeitável!""E tão grande!",ladra Chispa,sem abrandar a marcha."Estás a fazer juízos errados,minha amiga",volve Tobias,lá do alto."É um urso sábio e muito pacífico"."Andaste com ele na escola?",atira-lhe Chispa,irónica."Todos os animais da floresta o conhecem e admiram",informa Tobias."Se conversasses com ele,garanto-te que irias adorá-lo",opina o gaio.Mas Chispa não parece muito convencida das qualidades de Thor;e só pára depois de passar por entre as grades do portão da quinta."Salva!",exclama ela,num ladrido de alívio."Tonta!",grasna Tobias para com as suas penas.

7.

"Olha à tua retaguarda",sugere-lhe Ilca.Chispa obedece e,quando vê,a dois passos de distância,um enorme urso pardo,dispara numa correria tal que nem uma chita-que é,como se sabe,o animal mais veloz ao cimo da terra- conseguiria acompanhá-la."Que bicho tão assustadiço!",comenta Thor,o urso.Trata-se de um especialista em comportamento humano,vindo das serranias da Galiza para dar uma conferência sobre como lidar com os seres humanos e o que fazer para os evitar."Volta,amiga!",grita-lhe Ilca.Mas a cadelinha só quer afastar-se o mais possível daquela criatura tão corpulenta que a pode transformar em puré com uma só patada.

6.

Ilca não responde de imediato.Suspira e,assumindo uma expressão entre triste e nostálgica,diz:"Fêmea é mãe-a minha saudosa mãe.""Morreu?",pergunta Chispa."Foi assassinada pelos humanos"."Lamento muito",gane Chispa."Não é com eles que tu vives?",pergunta Ilca com certa agressividade."É",confirma Chispa."Mas nem todos são maus.Nem todos praticam esses actos abomináveis.""Quero apresentar-te um animal muito importante na nossa comunidade",diz a corçazinha."Que animal?",pergunta Chispa."Eu",diz alguém.

5.


Como não é todos os dias que um cão se passeia por tais paragens,muitos animais vêm espreitá-lo.E há mesmo um que se enche de coragem e interpela a cadelinha:"Chamo-me Ilca.E tu?"Chispa recua um pouco,decerto surpreendida com aquela imprevista aproximação.Tem pela frente uma corçazinha de olhar aveludado e umas orelhas muito parecidas com as suas,ressalvando o tamanho,como é óbvio."Chamo-me Chispa",ladra de mansinho."Que espécie de animal és?",pergunta Ilca."Sou um cão,ou melhor,uma cadela",informa Chispa."Uma...cadela?Não entendo",confessa a corçazinha."Sou um cão-fêmea",explica Chispa.

4.

A verdade é que ela adora sentir-se parte integrante da floresta,tal como se fosse um coelho,uma marta, uma raposa ou qualquer outro dos seus habitantes;porque sabe que a verdadeira essência da vida está ali,naquele lugar preservado de toda a intervenção humana.Na floresta,são as flores que se plantam a si mesmas.E as árvores também.E todos os animais têm 'pedigree',porque são autênticos,quer se goste ou não do seu aspecto físico e do seu modo de ser.O mundo precisa de autenticidade.Precisa de ser menos complicado.E a floresta virgem é um bom exemplo a seguir.

3.

Serpenteando serra abaixo,um riacho de água cristalina dessedenta a corça e participa no maravilhoso concerto em que os pássaros são os principais solistas,e aos quais se juntam,também,os grilos com o seu canto monocórdico e os insectos com os seus humildes zumbidos. Chispa,talvez inspirada por essa harmonia magnífica que é o pulsar da Natureza,resolve dar um longo passeio,acompanhada por Tobias,já que Quevedo,Chiquinho e Dante não são muito dados a surtidas exploratórias longe dos recipientes da comida e da água.Feitios...

2.


Mais além,um javali rebola-se na lama,provavelmente para arrefecer a superfície do corpo e para se desparasitar;enquanto que um besouro-esse incrível insecto que passa três anos debaixo da terra e três semanas ao ar livre- se alimenta de uma folha(que é parte importante da sua dieta),tal como o arganaz que,sempre temeroso de ser caçado por uma coruja-do-mato ou por um mocho pequeno,devora,o mais depressa que pode,um minúsculo caracol.

1.INÍCIO

Não longe da quinta onde Chispa tem o seu lar,numa zona de floresta ainda não profanada pelo instinto destruidor de alguns humanos,os filhos da Natureza porfiam nas suas tarefas diárias.Aqui,é um texugo recolhendo musgo,folhas e ervas secas,a fim de atapetar a principal divisão da sua toca,feita de vários compartimentos.Ali,é um picanço-de-barrete-vermelho escavando o ninho no tronco de uma árvore.Levará de entre quinze a vinte dias para preparar esse espaço sagrado onde a fêmea porá os ovos.

LIVRO SEGUNDO:A REVOLTA DOS FILHOS DE GAIA

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CAPA

De cima para baixo:Nome do autor;nome da série;título do livro;logotipo da editora.
Fim do Livro Primeiro

30.


Com a missão cumprida,Chispa,Quevedo e Tobias regressam ao sítio a que pertencem.E são recebidos pelos miados galhofeiros de Dante:"Mmmm...Parece que têm as patas mais curtas!Será que as gastaram fugindo dos rottweilers?..."Chispa prefere ignorar a provocação e pergunta por Chiquinho."Esse",mia Dante,"após se ter borrado de medo,voltou à sua habitual empáfia.É o que eu sempre digo:subiu-lhe o 'pedigree' à cabeça".Chispa,porém,nem sequer comenta os irónicos miados do gato.Está esfomeada e com uma enorme vontade de dormir um sono reparador no seu fofo colchãozinho de retalhos.Mas não será por muito tempo...

29.

...o esforço acaba por ser recompensado!Miss Margaret,em pessoa, dá as boas-vindas aos quatro proscritos,pondo em evidência toda a sua ternura.E até afaga King como se o conhecesse desde cachorrinho e nunca se tivessem separado.Emocionado,o rottweiler nem sabe como há-de reagir à onda de carinho que o envolve porque,até ali,só recebera maus tratos,desdém e muito,muito ódio.Mas,a pouco e pouco,a energia tão quente e tão boa que emana do coração de Miss Margaret invade o seu próprio coração.E gane de felicidade.

28.

"Eis o vosso futuro lar",grasna Tobias quando,numa curva do caminho,surge,imponente,a Quinta da Boa Esperança,comprada há alguns anos por uma simpática senhora inglesa-Miss Margaret-e que transformou num exemplar lugar de acolhimento para todos os animais abandonados."Aproximem-se do portão e ladrem o mais que puderem,até aparecer alguém",sugere Chispa aos rottweilers."Nós escondemo-nos,para que a senhora não pense que também precisamos de ser alojados".E assim acontece.Os rottweilers fazem um enorme chinfrim,ladrando,ganindo e uivando,até que...

27.


O gaio põe-se a voar de árvore em árvore,para que os cães o possam acompanhar e não se percam,rumo à tal propriedade que será,a seu ver,não só a salvação para os rottweilers,mas um autêntico paraíso.Cerca de uma hora mais tarde,Chispa,cansada e algo inquieta,pergunta-lhe,ladrando bem alto:"Ainda falta muito?"Tobias desce para os ramos mais baixos da árvore onde está pousado e mostra o seu desagrado pela impaciência da cadelinha:"Já estamos a chegar.E não me ladres tão alto,que não sou surdo!"Na verdade,já consegue ver o muro que rodeia a propriedade e o telhado da moradia onde reside a sua proprietária...

26.

Agora,trata-se não de lutar contra o famigerado "Bando dos Rottweilers",mas de ajudar quatro pobres cães que a população quer abater."Que fazemos?",gane Chispa,erguendo o focinho como que a farejar uma solução salvadora."Nos meus inúmeros voos,apercebi-me da existência de uma propriedade que,segundo me parece,acolhe animais desvalidos",informa Tobias."E onde fica essa propriedade?",pergunta Quevedo."A muitos bater-de-asas daqui",grasna o gaio."Assim,não nos entendemos",ladra Chispa,ansiosa."O melhor,é seguirem-me!",opina Tobias.E assim fazem.

25.

Chegando de rompante,e tentando fazer crer aos rottweilers que comanda um verdadeiro exército,Chispa ladra:"A eles!A eles!"Mas ao ver o ar bem-disposto de Quevedo e dos componentes do "bando",estaca,confundida."Afinal,são velhos amigos",revela Quevedo.E logo lhe resume,em meia dúzia de ladridos,toda a história.

24.


Quanto a King,o seu percurso não fora muito diferente.Também fugira da Pedra Negra,mas não tivera a sorte de encontrar quem o amasse.Por isso-e perante a crescente agressividade da população-,resolveu afastar-se do contacto com os humanos,transformando-se numa espécie de fora-da-lei.Os restantes componentes do "bando"-Leão,Black e Átila-haviam sido,igualmente,vítimas de maus tratos e abandono...

23.

Depois,foi um longo peregrinar através das ruas e ruelas da vila que serviu de cenário a estes acontecimentos,umas vezes perseguido pelos funcionários do canil municipal,outras pelos garotos que lhe lançavam pedras como se fosse um bicho ruim.Até que duas almas compassivas-um casal bondoso e responsável-lhe franquearam a porta de sua casa.E foi nesse novo lar que Quevedo ficou e ganhou raízes,até ao presente.

22.


Tal como havia planeado-aproveitando a momentânea ausência dos trabalhadores-,saltou com alguma dificuldade para a caixa da camioneta e escondeu-se entre os cabazes de hortaliça,tremendo de ansiedade perante a possibilidade de ser descoberto.Pouco depois,porém,a viatura punha-se em marcha,levando-o rumo a um destino incerto,sim,mas nunca pior do que aquele que lhe estava reservado se não tivesse ousado abandonar a Quinta da Pedra Negra.

21.


Quando raiou a aurora,Quevedo tinha arquitectado um plano para sair dali.Todas as manhãs,uma pequena camioneta de caixa aberta,pertencente a um vendedor do mercado municipal,vinha abastecer-se de hortaliças que a quinta produzia.Tentaria,pois( aproveitando a ausência do motorista e do seu ajudante),esconder-se entre a carga.E,das duas,uma:ou era bem sucedido na sua empresa ou poderia dizer adeus à vida.

20.

A chuva e o frio nocturno tiveram o condão de o reanimar.Mal percebeu o que estava a acontecer-lhe,arrastou-se até ao muro da quinta,decidido a deixar para sempre aquele lugar de pesadelo.Mas a empresa não era fácil,porque se sentia muito debilitado.E então uivou,longamente e de mansinho(para que o seu algoz o não escutasse)toda a dor que lhe ia no coração.

19.

Certa vez,bateu-lhe tanto que o deixou prostrado.Julgando tê-lo morto,arrastou-o para o fundo da quinta e,empunhando uma enxada,pôs-se a abrir uma cova,a fim de o enterrar.Porém,um súbito aguaceiro fê-lo interromper a lúgubre tarefa e refugiar-se em casa.Até que anoiteceu...

18.

Quevedo revê,mentalmente,essa época terrível,vivida sob a constante ameaça do chicote de um déspota que parecia alimentar-se da sua própria maldade.Era um ser humano de aspecto muito pouco atractivo,sem coração nem princípios.E-ironia das ironias-,dizia-se amigo dos animais!...

17.

"O que tendes a fazer,fazei-o depressa",rosna Quevedo,num tom grave."Mas será que não estás a perceber?!Sou o King,meu amigo!",ladra-lhe o chefe dos rotweilers."King?Um dos guardiões da Quinta da Pedra Negra?",gane Quevedo,incrédulo."Exactamente!Dessa matilha de que tu também fazias parte!",confirma o rottweiler.

16.


Não longe dali,Quevedo passa por momentos de grande aflição.Rosnando e mostrando os dentes,os quatro rottweilers rodeiam-no,reflectindo em seus olhares as piores intenções.Que pode ele fazer?Enfrentá-los?Seria morte certa.Mas,pelo menos,irá defender-se!Venderá cara a pele!"P-Peles?!",ladra,subitamente,um dos rottweilers.